Escolas revelam atrasos na aplicação do novo programa de Matemática

Associação de Professores de Matemática defende suspensão do programa do 10.º ano e substituição das Metas Curriculares do Ensino Básico por orientações de gestão do programa por ciclo de ensino. Estreitamento e distorção curriculares surgem na lista das suas preocupações.

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A Associação de Professores de Matemática (APM) está apreensiva com os atrasos verificados na aplicação do novo programa de Matemática A do Ensino Secundário, que este ano letivo começou a ser aplicado no 10.º ano de escolaridade. Num inquérito online, e em que já participaram várias escolas, há indicações de atrasos, em média de três semanas, e de piores notas dos alunos do 10.º ano no final do 1.º período. Indicações reforçadas por informações que a APM vai recebendo de professores, alunos e pais.

No inquérito da APM acerca da implementação do novo programa de Matemática A, foram validadas, até ao momento, respostas de 77 escolas. Destas, 70 seguiram a ordem do programa, mas apenas três cumpriram a planificação prevista até ao final do 1.º período. Há uma média de 13,9 tempos letivos em atraso no final do 1.º período e uma média de 5,9 tempos letivos semanais atribuídos à disciplina. As 77 escolas correspondem, no total, a 268 turmas e a 178 professores.

A APM não concorda com o novo programa, aprovado pelo anterior ministro da Educação, Nuno Crato, devido à abordagem demasiado formalista e teórica, elevado grau de abstração, introdução de conteúdos lecionados no Ensino Superior. “Fomos muito críticos em relação a este programa que é completamente desajustado, muito extenso, e alertámos para o problema que iria ser a sua aplicação”, recorda Lurdes Figueiral, presidente da APM, ao EDUCARE.PT. A APM defende a suspensão deste programa já no próximo ano letivo e sua substituição pelo que vigorava anteriormente e aprovado em 2002. “Este programa de estudos deve ser retirado”, defende a responsável, que propõe uma avaliação do programa de 2002 e reajustes caso se justifiquem.

As Metas Curriculares de Matemática do Ensino Básico também preocupam a APM que fala na “impossibilidade” de serem cumpridas e em “caos” na sua aplicação. “É impossível cumprir estas metas quer na extensão quer no conteúdo e sobretudo na abordagem”. Por isso, a APM pede a substituição destas metas por orientações de gestão curricular. Na análise dos planos de estudos que estão a ser aplicados nas escolas, Lurdes Figueiral fala em “programas completamente anacrónicos” e até mesmo “objetos de espanto” por parte de professores portugueses e de outros países.

Em 2012, recorde-se, os autores do programa de Matemática contestavam as novas Metas Curriculares da disciplina para o Ensino Básico. Nessa altura, os nove professores alertavam para a aplicação de um programa distinto na estrutura e na lógica e destacavam as diferenças que, na sua opinião, eram “desajustadas e inapropriadas”. Os autores realçavam, entre vários aspetos, a introdução de conceitos, terminologia e procedimentos “totalmente desadequados” a determinados ciclos de ensino, bem como um “acentuado esvaziamento de capacidades matemáticas” importantes para a resolução de problemas, raciocínio matemático, cálculo mental e capacidade de lidar com representações e conexões matemáticas.

“Deste modo, consideramos que estas novas metas, em muito do que se propõem alterar face ao que os professores têm vindo a procurar concretizar na sua prática de ensino, no quadro do programa de Matemática em vigor, não apenas não trazem esclarecimento ou apoio relevantes, como prejudicam o bom desenvolvimento dessa prática com consequências negativas para a aprendizagem dos alunos”, avisavam os autores do programa de Matemática. Nessa altura, Jaime Carvalho e Silva, do departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, também se debruçava sobre o assunto e referia que as metas curriculares em discussão não apresentavam “uma perspetiva moderna na maioria dos aspetos em que se desviam do programa, devendo ser seriamente repensadas”.

Evitar distorção curricular
A APM tem várias propostas nesta matéria e que estão explicadas num documento aprovado pelo seu conselho nacional, em janeiro, e que já foi entregue à tutela. No Ensino Básico, a APM foi contra a revogação do programa de 2007 e discordou com o que o veio substituir. Nesse sentido, recomenda que se faça um estudo e que se ouçam os professores para alterar o programa “numa versão certamente muito mais próxima do de 2007 do que do de 2013”. Propõe a substituição das atuais Metas Curriculares por orientações para a gestão do programa por ciclo de ensino, dirigidas a cada domínio temático do programa; a avaliação dos três anos de implementação do programa de 2013 e a planificação das alterações curriculares que se entenderem necessárias mediante essa avaliação; e a suspensão da adoção de novos manuais escolares até que sejam feitas as alterações curriculares que vierem a ser consideradas adequadas.

No Ensino Secundário, em relação à Matemática A, a APM sugere a suspensão do programa de 2014, a elaboração, por parte das escolas, de um ajustamento curricular que considerarem necessário para concluir a lecionação do 10.º ano em curso, por forma a permitir a continuidade, nos 11º e 12º anos que se seguirão, com o programa anterior; e a avaliação do programa em vigor até 2015 e uma eventual reformulação de acordo com os dados dessa avaliação, tendo em conta, sublinha, “o princípio de uma formação matemática para todos no âmbito da escolaridade obrigatória, por um lado, e da formação matemática inerente à diversidade subjacente ao ensino secundário, por outro”.

A APM também analisa o novo modelo de avaliação do Ensino Básico proposto pelo atual Ministério da Educação. E aqui manifesta alguma preocupação com o estreitamento e com a distorção curriculares, aspetos que, na sua opinião, são “tanto mais graves quanto mais precocemente tiverem reflexos na sala de aula”. A APM recomenda que se pondere e avalie a aplicação das provas de aferição sobretudo em relação a três aspetos: ao formato das provas, aos anos em que se aplicam, e à universalidade obrigatória da sua aplicação. Isto para que, explica, “o efeito da distorção curricular (preparar para as provas com a consequente pressão sobre alunos e professores) se evite no trabalho letivo, e as provas possam antes favorecer uma prática de avaliação contínua verdadeiramente formativa”.

O aumento do número de alunos por turma, o aumento do horário em funções letivas dos professores, a burocratização do trabalho docente, a pressão sobre os professores para obtenção de resultados que favoreçam a avaliação das escolas, a falta de apoios aos alunos com dificuldades de aprendizagem ou com necessidades educativas especiais, a gestão de agrupamentos de escolas cujas dimensões não permitem um conhecimento e acompanhamento próximo da vida da comunidade educativa, são outros assuntos que o conselho nacional destaca no documento.

A APM sugere um amplo debate para um entendimento partilhado sobre as finalidades e princípios definidos na Lei de Bases do Sistema Educativo com o envolvimento de professores, escolas, especialistas e investigadores das diversas áreas de conhecimento especialmente relacionadas com o desenvolvimento curricular, a avaliação e as didáticas específicas das diversas disciplinas. E propõe que se alterem as condições de trabalho nas escolas para se “tornar efetivo um acompanhamento próximo dos alunos por parte dos seus professores”.

 

in educare.pt, noticias, Sara R. Oliveira, 24-02-2016

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